A poesia discreta das janelas do 549M - Recicla Leitores

Quem viaja nas poltronas estofadas, e tantas vezes gastas, das linhas de ônibus que cruzam as nossas cidades sabe que o transporte público é muito mais do que um meio de deslocamento. É um palco flutuante de histórias cruzadas. Pegar o 549M (Santa Izabel x Niterói) no início da manhã é aceitar o convite para um mergulho na alma da nossa gente.
Enquanto o motor ronca cortando o asfalto, o mundo lá fora vai mudando de tom. Da calmaria de Santa Izabel, passando pelo movimento que começa a pulsar em Alcântara, até desaguar no burburinho do centro de Niterói, a viagem é um mosaico de cenários.
Os mais antigos vão lembrar, com um sorriso de canto de boca, da época em que a pressa dessas frotas rendeu à linha o folclórico apelido de Diabo Verde. O nome, que assustava os desavisados, na verdade guardava a cumplicidade de quem precisava desafiar o relógio para garantir o sustento. Hoje, com o passo mais brando, o verdadeiro espetáculo já não está na velocidade ou na paisagem que corre rápida pela janela, e sim do lado de dentro.
Repare bem no passageiro do banco ao lado. Um jovem estudante, ainda sonolento, segurando a mochila contra o peito como se fosse um escudo contra o cansaço do dia que apenas começa. Logo adiante, a senhora que segura um terço ou folheia um livro com páginas amareladas pelo tempo, alheia ao solavanco dos buracos. Existe uma cumplicidade silenciosa entre essas pessoas. Ninguém se conhece, mas todos compartilham o mesmo destino, o mesmo balanço, a mesma rotina.
O motorista vira personagem quase mítico dessa jornada. Ele conhece os passageiros pelo horário. Sabe quem vai correr desesperado atrás do ônibus na próxima esquina e guarda, na memória o bom dia sincero de quem entra. É um microcosmo de pura humanidade.
Olhar para o 549M, ou para qualquer linha que costura nossos bairros, é entender que a nossa identidade é feita desses pequenos fragmentos de tempo. São Gonçalo e Niterói não se conectam apenas por limites geográficos. Elas se conectam pelos olhares cansados, mas cheios de esperança, de quem faz da janela do ônibus o seu momento de sonhar com o futuro, sem esquecer de onde veio.
Ao final da viagem, quando as portas se abrem no terminal e a multidão se dispersa, fica a certeza que cada um ali leva consigo um pedaço da história do outro. E a cidade, silenciosa, agradece por mais um capítulo escrito sobre rodas.
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